Segunda, 08 Ago 2022
No movimento solitário da multidão

 

          No movimento solitário da multidão Por: Alexandre Joca Mestre e doutorando em Educação (UFC) Membro do Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB) Hoje, Fortaleza, mais precisamente a Beira Mar, receberá milhares de pessoas na XII edição da Parada pela Diversidade Sexual do Ceará. As paradas nos fazem pensar na cidade pelo prisma das relações binárias contemporâneas em torno das sexualidades: heterossexualidade/homossexualidade, público/privado, segredo/revelação, assumir-se/esconder-se etc. Quando questionado sobre seu sentimento ao participar pela primeira vez de uma parada, respondeu um jovem gay: “Descobri que não estava só.”. Isso nos informa sobre a vida e a sociabilidade de LGBT nos espaços urbanos. A descoberta do “outro” como semelhante, tendo como referência a orientação sexual, desperta no indivíduo o sentimento de pertença a um grupo, revela a segregação com a qual LGBT estão geralmente condicionados a conviver. É muito comum entre LGBT, o uso das expressões “não assumido”, “enrustido” ou “está no armário” para as pessoas que não revelam sua orientação sexual publicamente ou para si mesmo. Tal situação, talvez, seja geradora desse sentimento de solidão e possa estar associado à idéia “do diferente” instituída pelos processos de homogenização (dos sujeitos) que a sociedade heteronormativa impõe cotidianamente, seja nos espaços públicos da cidade, seja no âmbito das relações privadas, no ambiente familiar, por exemplo.


          Sentir-se “o diferente” do outro e na contramão do instituído, vem condicionando LGBT a desenvolver subterfúgios, táticas de resistência e de enfrentamento aos danos oriundos de preconceitos e a discriminações. Se as instituições sociais, como Família, Escola e Igreja, ainda regem-se pelo reconhecimento restrito daheterossexualidade, negando os direitos civis e sociais de LGBT, estes vêm ressignificando os espaços urbanos e construindo alternativas de sociabilidades. A estratégia da conhecida “sociedade tolerante” à diversidade sexual é a permicividade da existência de territórios destinados especificamente a LGBT, mais conhecidos como guetos. Geralmente, bares, boates, saunas, cinemas, enfim, espaços de lazer e sociabilidade entre pares conduzidos pela lógica do lucro, o que gera mecanismos demarcadores de classe social, portanto, tão desiguais e segregadores quanto os demais. Aponta-se aí para a prática de uma “vida dupla”, onde a homossexualidade paira sob o crivo do anonimato, da clandestinidade. O deslocamento ao gueto proporcionaria a LGBT a descoberta e o acesso à cidade e suas múltiplas possibilidades; à construção de redes de sociabilidades e à ampliação significativa da rede de amigos LGBT, no entanto, não constitui-se enquanto atitude política voltada à afirmação da cidadania LGBT. É verdade que desde os anos de 1990 a sexualidade vem “saindo do armário” e ultrapassando a fronteira entre o público e o privado. Nesse contexto, o gueto surge como um subterfúgio para “assumir-se”, para liberar-se, para o encontro sem medo e sem culpa, “onde posso ser eu mesmo”, sem máscaras, o que lhe atribui significativa importância para a vivência dos desejos e prazeres homossexuais. Um local para ser feliz longe dos olhos repressores da heteronormatividade, diriam muitos. No entanto, para além do gueto, os avanços nos debates públicos sobre os direitos LGBT podem ter contribuído significativamente para o “assumir-se” fora dele, para a abertura dos armários, o rompimento das amarras. Um exemplo muito nítido em Fortaleza tem sido a ocupação de jovens LGBT a alguns espaços públicos, como praças e avenidas da paisagem urbana.


          E as Paradas? Para alguns, um ato político pela cidadania LGBT, para outros, um gueto em via pública, um carnaval. O fato é que a tática de ocupar o espaço público (as avenidas das cidades) funciona como instrumento de abertura dos armários, de rompimento com o gueto segregador. Um espetáculo? Sim, um espetáculo que democratiza as expressões diversas das sexualidades e dá visibilidade, para além da via pública, às demandas e reivindicações da população LGBT. É uma forma de mostrar que LGBT existem sem o dito comportamento que a sociedade cobra, “ele é gay, mas sabe se comportar”. É uma festa da diversidade, pública, sem esconderijos. É poder brilhar por um dia. É encontro. É também consumo, mercadoria, o que não tira seu significado maior: uma expressão política de luta. Pondo em xeque a premissa do “assumir-se” como um passaporte para a felicidade, acredito não haver um modelo, uma receita, para os percursos das sexualidades (seja homo ou hetero, ou bissexual), tão pouco um desenho que o ilustre na cartografia urbana, pois tanto a cidade quanto seus habitantes estão sempre em constante movimento; em um eterno refazer-se, a desenhar-se em novas paisagens, a pintar-se em cores diversas, a moldar-se em formas inconstantes, seja em meio à multidão, seja na solidão de suas subjetividades. Eis um dos princípios das diversidades e das diferenças, hoje celebradas, que nos levam às ruas. Descubra você também que não estamos sós.